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Saudades do Orkut

Original Read in English
2022-04-26 3 min read
orkut
individualismo
redes-sociais
tecnologia
bell-hooks

Eu estava lendo uma passagem de All About Love da Bell Hooks falando sobre como a cultura do individualismo é uma estratégia de dominação e fiquei pensando como a tecnologia vem contribuindo pra isso.

Já há algum tempo eu debato, nos meus momentos terapêuticos, sobre como a internet pra mim passou de paixão até um certo tipo de paranoia quando se trata de que sociedade estamos ajudando a criar.

A cultura do individualismo começa a me preocupar no mundo da TI. Lembra do conceito de comunidade do Orkut? E das salas de bate-papo? Não era gostoso?

Okay, podemos recorrer a outras plataformas, que inclusive chamamos de redes sociais, mas me intriga que, de maneira geral, essas ferramentas tendem a adotar uma socialização hierárquica onde um posta e os outros seguem. Se esvazia o senso de que todo mundo tem o mesmo valor.

Socializar em roda, onde todos os integrantes são lidos de maneira igual, é uma tradição que remete a uma ancestralidade africana. Não há espaço para um falar e outros ouvirem. Eu fico pensando: será essa uma das razões pelas quais o Orkut era muito forte no país mais preto fora da África?

Olha, na minha opinião, socializar não é bem o forte da branquitude ocidental — e percebe quem se apropriou dessa responsa?

Ao pensar sobre a minha vida na internet, eu percebo que uma das coisas que me motivava a ficar online era a expectativa de poder conhecer outras pessoas que gostam das mesmas coisas que eu, mas infelizmente, eu não lembro quem foi o último amigue de internet que eu fiz.

Bom, verdade, a gente tem muito mais ferramentas hoje em dia para matar a saudade das nossas relações sociais. Mas será que a saudade não deveria ser a nossa ferramenta biológica para buscar a conexão?

Estamos matando a saudade e botando tecnologia no lugar, é isso mesmo?

Historicamente isso sempre aconteceu, fato. Tá aí, na frente dos seus olhos, um aparelho que se chama telefone, prazer! Dá pra ligar e conversar com uma pessoa que você ama.

Agora, a computação é infinitamente mais poderosa que o telefone. Daqui a um tempo, us assistentes de casa vão ter capacidade pra ser seu amigue, e o pior: talvez você ache elus melhores que seus amigues biológicos, pois elus não irão te desapontar, a não ser que falte internet, HA.

Por falar em saudade, como a gente vai confiar em um povo que nem tem essa palavra no dicionário pra fazer redes sociais? Há muitos estudos confirmando que a linguagem impacta nossas percepções da realidade e nosso comportamento. Talvez por isso nossas relações estejam se tornando cada vez mais superficiais — a gente aprendeu com a internet que pessoas podem ser descartadas com um simples swipe left, pois a próxima pode atender melhor às suas necessidades. E assim a gente vai ficando… zumbi de celular… 8 horas por dia olhando uma telinha em vez de passar tempo com nossos companheires de jornada.

Ahhh, essa lógica individualista.

Computação e internet são ferramentas, e como quaisquer ferramentas, não há nenhum senso de bom ou ruim. Somos nós, seres humanos, que damos esse valor pela maneira como as utilizamos. Por isso mesmo eu luto por mais diversidade na computação, porém confesso que não sou muito otimista. Afinal de contas, a eficiência da computação e do capitalismo avança mais rapidamente que as reformas nas estruturas sociais.

Ao meu ver, o saldo até então ainda é positivo. Contribuímos mais a favor da vida do que da estagnação dela. E o futuro? Viveremos em nossos mundinhos virtuais "perfeitos", isolados da realidade, de uma maneira parecida com Matrix, onde, ao se desconectar, não há mais sentido em nossa existência? Ou ainda haverá espaço e tempo para nossas vidas e as vidas dos que estão ao nosso lado, se é que a gente ainda enxerga alguém?