E o amor, é cego?
Antes de começar gostaria de mencionar que toda vez que falo em amor no texto não estou falando de uma perspectiva romântica, cristã, ocidental e heteronormativa da constituição de relações. Estou me referindo ao sentimento de amar. O amor.
O seriado Amor às Cegas sempre me desperta muito interesse. Reservadas as inúmeras críticas sobre reforços de padrões de beleza e modelos de relações heteronormativas (bleh) — o experimento, por mais superficial que seja, tenta por a prova a pergunta: Afinal de contas, o amor é cego?
É incrível como essa crença esteja, cada vez mais, caindo por terra nos tempos pós-modernos, de tal maneira que temos um reality show capitalizando com essa incógnita e uma audiência gigante que, acredito eu, em grande maioria, achando sem sentido a pergunta: como assim amar sem enxergar?
Que pena… cegos estamos nós que não enxergamos o amor.
Eu gosto de duas frases da Bell Hooks em Tudo Sobre o Amor para entender esse assunto.
"Nossa confusão em relação ao que queremos dizer quando usamos a palavra 'amor' é a origem de nossa dificuldade de amar."
Segundo ela, temos dificuldade de amar. E ela mesmo responde o motivo pelo qual essa tarefa é tão difícil.
"No momento em que escolhemos amar, começamos a nos mover contra a dominação, contra a opressão. No momento em que escolhemos amar, começamos a nos mover em direção à liberdade, a agir de formas que libertam a nós e aos outros."
Então, para Bell Hooks, a privação do amor é uma ferramenta de dominação do opressor e, talvez por isso — julgo eu — temos cada vez menos ouvido falar desse sentimento.
Porém… vem comigo, amor, abra esse coraçãozinho e receba um pouquinho do meu sentimento por você.
Amor não tem nada haver com o meio físico. O ato de amar é acreditar na idéia que a devida pessoa, ser vivo ou coisa possa te fazer tão bem que você deseja cuidá-lo, preservá-la. Um prazer tão grande que você gostaria de compartilhar, de maneira que você não entende quando outras pessoas não acreditam em tamanho deslumbre. Você enlouquece — loucura de amor!
E digo que é um ato, pois pequenos atos de afetos que movimentam o amor. E, como para qualquer coisa que queremos movimentar na vida, precisamos acreditar nela. Em última estância, nós amamos nossas crenças, por isso, encontramos pessoas que amam suas religiões, seu dinheiro, seus esportes, etc. Não é porque é bom o que se vive hoje, é porque amanhã será no mínimo tão bom quanto.
Eu te entendo…
Às vezes nos complicamos em amar outro ser humano. Temos em nossas mentes regras muito consolidadas de como pessoas deveriam se movimentar. Difícil… pessoas se movimentam de inúmeras maneiras, eventualmente, elas irão se movimentar contra nossas regras, até mesmo a que julgamos triviais.
Porém, aí que vem o ato de amar, acolher o que leva o outro se movimentar como se movimenta, e também acolher as consequências e novos movimentos que irão ser tomados.
É CLARO que o amor é cego!
Amar, é escolher e se permitir ser movimentado junto. Se transforme! Faça a vida acontecer! Exerça, em última estância, o que resta de humanidade entre a gente nessa pós-modernidade hipócrita.
Ficamos doentemente buscando nos encaixar às inúmeras regras sociais que a sociedade contemporânea exige, que quando nos deparamos ao nosso sentimento, ao nosso espelho, congelamos. Assim como Paulo Simi com medo da reação da sociedade perante ao desejo dele.
Se acolha, acolha seu sentimento. A sociedade está muito adoecida para você ficar se preocupando. Se desprenda das regras que só te atrapalham e viva essa loucura que as pessoas não conseguem entender.
E se, no fim de tudo, as vivências te machucarem demais… Eu vou estar aqui, meu amor. Achando lindo acompanhar você viver e esperando o momento que renasceremos de novo.
Te amo, Lair Júnior.